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terça-feira, 5 de fevereiro de 2008

Poema IV

Algum dia o teu corpo alastrará
como cães sem boca e olhos esboroados
serás escondido em toalhas de musgo
um embrulho de carnes malditas
onde os indesejados pernoitam velados
nas noites em que os ecos se dissolvem nus.

Os teus irmãos esquecerão o teu aroma
como no principio divino dos abutres
no silêncio acercará alguém à cidade
para apagar os vestígios desnecessários
nas vozes que habitam os íntimos pomares
os frutos rutilantes nas escoras urbanas

nesse lugar tu estarás na dilatada blasfémia.

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2008

Poema III

A memória do nome

Esmaga em prensas de laje os golfos do nome
dir-se-ia um nome de larva ou sílaba azeitada
e o corpo está enrijado como Jesus a prumo
ser imponderável revestido de folhas brancas,

sob o arco da língua retesada os cascos surdos
esta boca imunda em lava aberta esta tribo
e o fogo nas mãos como soldas no centro do ar
o ritmo asfixiante do verbo o hálito sangrento,

toda a cegueira da sombra das liras espiando
ó bem amado nome diluído na refracção do eco.
João Rasteiro

domingo, 3 de fevereiro de 2008

Poema II

Busca silenciosa
À Estrela Cenácula

Durante anos os procurei, um amieiro
a paixão, o amplexo do lugar, o clarão
das almas tristes, a infinidade da origem,
uma quimera de longos espaços virgens,
um cais de memórias, a construção
do sopro quando se sacrificam ditosos
os ranchos de pirilampos sob a madrugada
bebendo a luz nos espigões do horizonte.

Alguém morrerá na insídia das aldeias
roçando a frescura dos aguilhões dos rios
e a fúria das raízes germinará indigente
na visibilidade da luz entre o corpo e o lugar.

E as raízes crescem e crescem subjugando
os céus quando nos campos se procura o trevo
na magnifica volúpia da agonia dos movimentos.
João Rasteiro

Poema I


O cântico das pragas
É das palavras ateadas
que irradia a morte soberana
os lugares sitiados a blasfémia do silêncio.
Todos morrem nas palavras disponíveis
apenas os corvos tristes
a quem soldaram o bico no fulgor da prata
suspendem astutamente a morte
no branco das túnicas da água visível.
É nesse espaço ancestral
onde antes iam os homens sedentos
alimentar a fractura das vísceras
bebendo de rastos com as cobras
que a chuva desaba geométrica
estilhaçando o alastro da garganta
que guarda as sílabas com aroma de tílias.

O homem está morto dentro do poema
como a linguagem das antigas escrituras
e é o seu corpo que brilha através do branco.
As cobras emergem do chão
abrigam-se dóceis nas túnicas álgidas
acercam-se do corpo do homem exposto
iluminadas em sua própria loucura.
Engolem os restos da carne corrompida
e inexplicavelmente poupam-lhe os olhos
depois saboreiam o que lhes vai consumir
para sempre a língua o coração das entranhas.

O segredo absoluto e divino do extermínio do verbo.
João Rasteiro