domingo, 3 de fevereiro de 2008

Poema II

Busca silenciosa
À Estrela Cenácula

Durante anos os procurei, um amieiro
a paixão, o amplexo do lugar, o clarão
das almas tristes, a infinidade da origem,
uma quimera de longos espaços virgens,
um cais de memórias, a construção
do sopro quando se sacrificam ditosos
os ranchos de pirilampos sob a madrugada
bebendo a luz nos espigões do horizonte.

Alguém morrerá na insídia das aldeias
roçando a frescura dos aguilhões dos rios
e a fúria das raízes germinará indigente
na visibilidade da luz entre o corpo e o lugar.

E as raízes crescem e crescem subjugando
os céus quando nos campos se procura o trevo
na magnifica volúpia da agonia dos movimentos.
João Rasteiro

Critica II

Em João Rasteiro, encontramos uma poesia cujas principais referências e influências se vão encontrar em nomes como os dos poetas Herberto Helder, Fiama Hasse Pais Brandão ou Daniel Faria, mas também em nomes como os de Charles Bernstein ou Gertrude Stein. É uma poesia do corpo, físico e essencialmente do corpo da linguagem.

Graça Capinha – Professora, ensaísta e coordenadora da Oficina de Poesia - F.L.U.C./U.C.

Livros I


O corpo regresa ao seu corpo primeiro
ao júbilo maduro cozido e doce da carne
acendendo lâmpadas em que dançam cílios
uma arquitectura de luz palavras brancas
num sulco deslumbrante de fábulas azuis
em que mastigo a carícia de um sonho imaculado.

Traduções I


Beneath the Trees
But they still Kept their ease. Spread out, unbuttoned, grateful, under the trees.
SEAMUS HEANEY


A tree in order to have
root of incandescent wombs
a nest of rhizomes unseen
the initial breath inhabited
by skin blinded magnólias.


A tree of sharp teeth
devouring stones memory
the strangling innocence
where we breathe light the white
a secret path of narcissus
dilated smoothed scent
arms of cassiopeiae

on the naked splints honey-combs
between space and breath.


A tree stripped of birds
on the white lilies melancholy
or na unlimited echo
on the fury of the rubber tree colourless
for in the cracked flesh of the earth
amongst leafage and fire
clay is transmuted.


A mineral body inside
the cycle of coagulated seasons
the adoration of the tree forever
bending open leafs in flight.


A body the membranes breaking open
of tree itself against exhaustion
blood dripping to the roots
in water lines beneath groins
on the night stone of cities

where the tree of Judas seduces the beast.

On the quick sap of trees
i descend to the silent scars of speech
faking the resurrection of death.

Tradução: Sandra Guerreiro

In, Antologia Transnatural, Artez, 2006

Sob as árvores
"Mas lá ficaram ainda em seu sossego. Estendidos, desabotoados, gratos, sob as árvores".
SEAMUS HEANEY

Uma árvore para ter
a raiz dos ventres incandescentes
um ninho de rizomas ocultos
o sopro inicial habitado
de magnólias cegas de pele.

Uma árvore de aguçados dentes
que devora as pedras da memória
a inocência estranguladora
onde se respira a luz o branco
um atalho secreto de narcisos
o olfacto polido dilatado
os braços das cassiopeias
nos favos das lascas nuas
entre o espaço e a respiração.


Uma árvore desnudada de aves
sobre a melancolia das açucenas
ou um eco sem contornos
na raiva incolor da borracheira
porque na carne fissurada da terra
entre a folhagem e o fogo
a argila se transmuda.

Um corpo mineral dentro
do ciclo das estações coaguladas
sempre a adoração da árvore
a vergar folhas abertas no voo.

Um corpo rompendo as membranas
da própria árvore contra o cansaço
o sangue escorrendo às raízes
em fios de água sob as virilhas
na pedra nocturna das cidades
onde a árvore de Judas seduz a fera.

Na volátil seiva das árvores
desço às silenciosas cicatrizes da fala
simulando a ressurreição da morte.
João Rasteiro

Cartas I

Traduções de João Rasteiro I


HAROLD ALVARADO TENORIO:
Poeta Colômbiano, Harold Alvarado Tenório é actualmente um dos mais consagrados poetas do seu país.Entre os seus livros destacam-se Fragmentos y despojos,(2002); Summa del Cuerpo,(2002); Literaturas de América Latina, (1995); Poemas chinos de amor, (1992); La poesia de T.S. Eliot, (1988); Espejo de máscaras, (1987); Kavafis, (1984), etc. Recebeu, entre outros, o Premio Nacional de Periodismo Simón Bolívar e o Internacional de Poesia Arcipreste de Hita. Actualmente dirige as Edições Arquitrave e a Revista literária homónima(impressa e online). A sua obra encontra-se publicada em inglês, francês, grego, chinês, alemão e português.

Poemas de Harold Alvarado Tenório

HERANÇA

A única herança do meu pai
[disse Yusuf ibn al-Sayj al-Balawi]
foi uns enormes testículos.

Que grande legado, pensou,
que grande legado.

HERENCIA

La única herencia de mi padre
[dijo Yusuf ibn-Sayj al-Balawi]
fue unos grandes testículos.

Qué gran legado, pensó,
qué gran legado.

À MEMÓRIA DE RAUL GÓMES JATTIN

Não compreendeste as palavras
aqueles que conheceram a loucura
jamais cresceram nos braços dos deuses
jamais cantaram contra o infinito.

A LA MEMORIA DE RAÚL GÓMEZ JATTIN

No comprendiste las palabras
aquellos que conocieron la locura
jamás crecieron en brazos de los dioses
jamás cantaron contra el infinito.

MENORCA

Na desolação
o verão
é uma chaga branca.

Os homens abandonam
o campo e regressam
a casa sem rosto.

Apenas os anciãos recordam a luz:
a vida é extensão
uma imensa planície.

MENORCA

En la desolación
el verano
es una llaga blanca.

Los hombres abandonan
el campo y vuelven
a casa sin rostro


Sólo los ancianos recuerdan la luz:
la vida es extensión
una inmensa llanura.
In, Revista Sítio, Torres Vedras - 2006

Ensaio I


POESIA:
UM CALCULADOR DE IMPROBABILIDADES NA GUERRA DAS PALAVRAS

" A poesia não é nenhum instrumento,
nenhuma propaganda. A poesia nada
resolve. A poesia não é uma coisa útil.
A poesia é um mistério amável"
JOÃO CABRAL DE MELO NETO

Poesia (do gr. Poíesis, criação), derivando do verbo grego "poiéô", que significa fazer, criar, compor, este termo releva o âmbito original da função poética enquanto artefacto demiúrgico, isto é, associado ao mito genesíaco ou da criação do mundo. Por isso, os romanos chamaram "vate" ao poeta, aquele que, possuído das musas do Parnaso, participava na função divinatória outorgada por Apolo, o Deus da adivinhação ou do conhecimento dos caminhos futuros. Saliento que a poesia é mais do que a arte de fazer poemas, P. Ricoeur reinventa-a, na linha de Heidegger, como um acto primordial, isto é, ligado à criação original do ser(1)"La poésie égale l`habiter primordial; l`homme n`habite que lorsque les poétes sont". Eugénio de Andrade refere que(2)"o poeta procura é uma reconciliação, uma suprema harmonia entre luz e sombra, presença e ausência, plenitude e carência". Por sua vez, Eduardo Lourenço designando essa "suprema harmonia entre luz e sombra" como "cegueira luminosa" reconhece-lhe o "privilégio do poeta", relacionando-o com a representação de Homero como poeta cego. Já Jorge Luís Borges afirma(3)"É a palavra que renasce. E a palavra há-de renascer sempre. Assim como a poesia, porque a poesia será sempre uma coisa nova. Será sempre uma descoberta. Sempre estará ligada à paixão do homem". O poeta Herberto Helder afirma,(4)"A poesia tem um papel na cultura, como a matemática e a música. Ela estabelece talvez um plano original no mundo do pensamento e da imaginação, plano de síntese das forças espirituais, (...)a vida do ser humano sobre a terra. Considero que todas as formas expressas da imaginação se concluem na verdade poética". A poesia(marginal e/ou proscrita)inútil, forçosamente comprometida com a realidade(não com o real), em permanente procura de uma ponte para um mundo mais "claro", mesmo se isso implica a dor e/ou o silêncio da palavra. No poema,(5)"O poema", Herberto Helder afirma:

Um poema cresce inseguramente
na confusão da carne.
Sob ainda sem palavras, só ferocidade e gosto,
talvez como sangue
ou sombra de sangue pelos canais do ser.

(...)
E o poema faz-se contra a carne e o tempo.

Mas será que o papel da poesia, no início do século XXI não terá que ser e/ou ter um papel permanente de(6)"investigar, pesquisar, perscrutar - o que o mundo não tem/o que o mundo não diz/o que o mundo não é", como afirma a poeta Ana Hatherley. Neste espaço de "realidade" e quando se pensa para o mundo, não deverá a poesia(7)"questionar as estruturas consideradas de significado e/ou representação, de forma a que o irrepresentado(ou seria o irrepresentável) possa e deva ser trazido à luz ou, pelo menos ao "jogo" do claro e do escuro", como refere o poeta norte-americano Michael Palmer? A poesia ainda deverá corresponder ao apelo profético de defensora das grandes causas da "Humanidade", arrastando embora, as consequências fatídicas de uma maldição de deuses e homens. Terá que existir a vocação de uma poética da condição humana, mas necessariamente numa dialéctica e/ou confronto de poesia e de ideologia. Como refere o poeta norte-americano Charles Bernstein(8)"a poesia deverá ir ao encontro do que a ideologia coloca de fora, terá de abrir fendas, numa espécie de guerrilha". Mesmo que seja necessário auto-marginalizar-se, a poesia terá obrigatoriamente de cada vez mais tentar criar um espaço e/ou mundo transparente, numa permanente luta de sobrevivência. A poesia como dialéctica multidirecional e multivectorial, se necessário, transgredindo, ou provavelmente transgredindo obrigatoriamente, numa desconstrução permanente, de forma a reinventar e/ou construir de novo, sendo cada vez mais necessário, a poesia ir além do óbvio. Como afirma o poeta Henrik Nordbrandt, da Dinamarca, no poema (9)"Pragmático":

As coisas que existiam antes de tu morreres
e as coisas que surgiram depois:
(...)
As primeiras recordam-me que exististe
as últimas que já não existes.

Que sejam quase indistinguíveis
é o mais difícil de suportar.

Creio assim, de que cada vez mais é função da poesia testemunhar o seu tempo, num processo de interacção, conversação e provocação, mesmo que suportada num precário equilíbrio entre a ordem e o caos. A poesia terá de estar em permanente ruptura com o cânone estabelecido, na procura de contribuir para a criação de um espaço e/ou mundo transparente, embora nunca homogéneo. A poesia é maneável e fugidia, ela oferece delírio e ilusão. Oferece emoções por medida e encomenda. Um poema é capaz de tudo, já que a poesia tem uma paciência infinita, logo, cada vez mais a poesia tem de "falar com" e não "falar sobre". A poesia é o último reduto num mundo inimigo da palavra, principalmente da guerra que essas mesmas palavras podem efectuar ao "centro" e/ou cânones da sociedade e da linguagem. A consciência da representação artística como veiculo de subversão de imagens e valores estabelecidos, de figuras, temas e eventos histórico-sociais canonizados pelos discursos oficiais e dominantes e a sucessiva valorização da poesia como revelação do mundo ou de "um mundo", do devir do tempo e das transformações da sociedade, como um espécie de guerrilha, é um dado adquirido. Mesmo se, é o poeta a continuar a afirmar e a acreditar de que a poesia não serve para nada. A poesia nada resolve e no entanto o mundo não pode passar sem ela. Como refere o poeta brasileiro João Cabral de Melo Neto, no poema(10)"Falar com coisas":

(...)
As coisas, por detrás de nós,
exigem: falemos com elas,
mesmo quando nosso discurso
não consiga ser falar delas.

É certo, que continua a ser uma utopia, a ideia de que "todos nós podemos falar uns com os outros com a voz universal da poesia", mas, mesmo que numa pequena escala, a poesia terá cada vez mais de "tomar uma posição em função do acto de abrir fendas", numa permanente dialéctica multidirecionada e multivectorial. Urge fazer, reinventando outras visões do "mundo" e para isso é essencial a poesia, mesmo se assente numa forma extrema de exercer a ruptura, a marginalização, o político. Como escreve o poeta Charles Bernstein, no poema(11)"Noites de Buffalo":

O sono devora a sua recusa
em acessos de resignação insolúvel
ao desprezo do dia, ignorando
razões enquanto se abre caminho pelo soalho
ou se olha pela janela, pouco
histórias tagarelas sopram
espinhos para o pavor da manhã. Há
um novo dia, este é
passado, mas a madrugada não
surge à porta de cada
dever. Acredita que o que cantamos
nos canta, o toque de silêncio quando ela
cai - a demora corroendo a promessa.
João Rasteiro - 2005

NOTAS:
(1) -Paz,Olegário.Dicionário Breve de Termos Literários.Lisboa,Editorial Presença,1997,p.169
(2) -Andrade,Eugénio.Os afluentes do silêncio.Porto,Ed.Limiar,1979,p.36
(3) -Faria,Álvaro Alves de.BORGES o mesmo e o outro.São Paulo,Escrituras,2001,p.49
(4) -Revista Êxodo.Coimbra,1961,p.33
(5) -Helder,Herberto.Poesia Toda.Lisboa,Assírio&Alvim,1996,p.26
(6) -Hatherly,Ana.A casa das Musas.Lisboa,Editorial Estampa,1995,p.46
(7) -Bonvicino,Régis e Palmer,Michel.Candenciando-um-ning Um samba para o outro.S.Paulo,Ateliê Editorial,2001,p.148
(8) -Revista Crítica de Ciências Sociais nº47."Bernstein,Charles:A-poética".Coimbra,1997,p.103
(9) -Rosa do Mundo,2001 Poemas para o Futuro.2ºEd.,Lisboa,Assírio&Al-
vim,2001,p.507
(10) - NOVAS SELETAS.Neto,João Cabral de Melo - org. Luís R. Machado.
Rio Janeiro, Edição Nova Fronteira,2002,p.27
(11) - Poesia do Mundo I - org. Maria Irene R. Sousa Santos.Coimbra,Ed.
Afrontamento,1998,p.56
In, Revista entreletras, nº 9, Tomar - 2006

Critica I


Críticas, análises e comentários ao livro: “Os cílios maternos”, de João Rasteiro (Palimage, 2005):


Muito lhe agradeço a oferta do livro Os Cílios Maternos (…)Vou ler tudo. Parece-me um belo livro. Como exclamava o outro: “E eu que ainda não li todos os gregos!”.

Herberto Hélder – Poeta e ficcionista português

Muito obrigado pelo exemplar do seu livro que teve a amabilidade de me enviar. Ao agradecimento, gostaria de juntar palavras de felicitação pela alta qualidade da obra No essencial, partilho a perspectiva de Carlos Felipe Moisés, atentíssimo a esse fluxo contraditório que promove o reencontro dos dois aspectos da nossa realidade mais íntima, mas também da linguagem: a razão e o instinto ou a mente e a emoção. Creio que o título do livro descreve bem, em miniatura, todo o movimento dos poemas (ou do poema), que no fundo procuram as fontes da chama lalangue,a língua maternal nas nossas profundezas como um rio sob as rochas.

Luís Adriano Carlos – Poeta e Ensaísta português

Recebi o teu Os cílios maternos e irei ler com a demora que a boa poesia exige. Já pude perceber como evoluíste. Há no livro poemas bem arquitectados, máquinas de linguagem. A capa, confesso, não me agradou, mas o conteúdo, que é o que realmente importa, parece-me magnífico. Certamente logo estarás entre os grandes líricos da nova geração de poeta portugueses.

Andityas Soares de Moura – Poeta, Tradutor e Ensaísta Brasileiro

Grato pelo seu livro Os cílios maternos. A sua poesia aparece agora mais depurada e há versos emblemáticos e lindíssimos. Toco este com as mãos: De carícia em carícia o tronco original. Um belo livro.

Casimiro de Brito – Poeta, Escritor e Ensaísta. Presidente do PEN C.P.

Gracias por tu poesia, por la intensidade y los símbolos tan ricos que contiene. As veces, unos poços versos, um poema breve, como los tuyos, revelan sin más al poeta verdadero. Me acomparán en los próximos dias.

Antonio Colinas – Poeta, Tradutor e Ensaísta Espanhol.

Recebi e li este belo livro que me enviou. Uma poesia de absoluta qualidade. Há um grande salto dos primeiros poemas até este novo livro. Encantou-me. Um abraço poético.

Álvaro Alves de Faria – Poeta, Escritor e Ensaísta Brasileiro.

Agradeço-lhe muito o envio de Os Cílios Maternos. Estou a lê-lo com o maior interesse e não quero deixar de o felicitar pela interessante poesia que escreveu.

Fernando Guimarães – Poeta e Ensaísta Português.

Constituíram uma agradável surpresa estes “Cílios Maternos”, que a sua generosidade me fez chegar (…) nos seus poemas há, a par de uma evidente modernidade de dicção, um recorte a que, à falta de melhor termo, eu chamaria clássico, visível na tendência para uma certa isometria e na propensão para o vocabulário selecto. Muitos parabéns.

Albano Martins – Poeta, Ensaísta e Tradutor Português

O novo livro de João Rasteiro tem como tema central a própria poesia, enquanto linguagem fundante, que se destrói e se refaz a cada tentativa de atenuar a desumanidade que espreita a criatura humana, neste nosso “tempo de penúria”.

Carlos Felipe Moisés – Poeta, Ensaísta e Tradutor Brasileiro

Apenas duas palavras para lhe agradecer “Os Cílios Maternos”, que li com o prazer que o texto indubitavelmente convoca. O poema, como me parece dever ser considerado o sintagma global, evoca subtilíssimas sugestões eróticas que a polissemia da palavra tanto pode remeter para os “Cílios” primordiais da Natureza fecunda (“os favos de mel da idade inicial”) como para o mais íntimo do corpo. Aliás há neste canto cósmico e polifónico a ocorrência obsessiva e funcional de elementos do corpo (“corpo é o nome atravessado”), de modo a deixar marcas imprecisas na totalidade do corpus textual. Muitos parabéns, portanto.

Manuel Simões – Poeta e Ensaísta Português

Estava ansioso por ver o teu livro(…)Estamos juntos e fiquei orgulhoso. Os Cílios Maternos é rico de imagens, com curtas reflexões, mas com distâncias e tempos de boa meditação que diria até filosófica(…)A tua ideia de corpo, define-se por essências que nenhum material ou construção de gesto encontram em estojo ou regra para conter-nos em simples emoção, porque algo por ali se inaugura e abre caminho. Quem leu ficou “de carícia em carícia o tronco original”.

Fernando Lemos – Pintor, Fotógrafo e Poeta Português

Muito obrigado pelos seus cuidados(…)pelas palavras que inscreveu no seu “Os Cílios Maternos”(…)sendo um autor que verdadeiramente admiro. Para já, fica-me a sensação clara de que o João Rasteiro se está a libertar cada vez mais do supérfluo, inscrevendo em cada palavra um aceso foco problemático de grandes potencialidades poéticas. Torna-se às vezes um tanto difícil, como se a sua escrita se aventurasse um pouco mais de livro para livro, no túnel conceptual do nosso entendimento – porque afinal, como diz (e muito bem, e belamente), “ o sonho é o sonho da ausência”. Poesia de retorno à palavra nua, incandescente, à memória transfigurada(…)Parabéns.

Nuno de Figueiredo – Poeta e Ficcionista Português

Caríssimo, livro recebido e para fruir com calma e silêncio por dentro da noite como a boa poesia exige e merece. Grande abraço e parabéns pelo teu belo “Os Cílios Maternos”.

Luís Carlos Patraquim – Poeta e Guionista Moçambicano

Fiz uma primeira leitura e gostei, mas farei outras, pois há dois ou três poemas em que fiquei a pensar. Mais uma vez obrigado por este livro Os Cílios Maternos e parabéns.

Eduardo Pitta – Poeta, Crítico literário e Ensaísta Português

Recebi Os Cílios Maternos, agradeço e vou ler com calma e atenção assim que um tempo o permita. Numa primeira e rápida leitura, o apetite para o ler fica alvoroçado. Parabéns pela tua poesia.

Ana Paula Tavares – Poeta, Ficcionista e Ensaísta Angolana

Estou de acordo com o autor do posfácio quando refere o ímpeto fogoso, verdadeiro magma verbal [desta poesia](…) tem a poesia de J. R. alguma coisa a ver ou não com o surrealismo? Para mim, é óbvio que tem. Para além destes recursos de que se vale a poesia de João Rasteiro, refira-se ainda o emprego das palavras raras, tão do gosto dos simbolistas e do nosso Eugénio de Castro, em particular. Acrescente-se ainda a estes considerandos uma sinestesia: o sabor do peso de um som inicial onde se podem detectar, porventura, algumas reminiscências do Carlos de Oliveira de Micropaisagem. Cílios, palavra que figura no título acrescida do adjectivo maternos, fornecem, na opinião de Carlos Felipe Moisés, a matriz da métaphore obsédante (Mauron)(…)Cílios constitui o operador da purificação na sua qualidade de filtro e opõe-se, numa dialéctica da condição humana, ao apelo dos sentidos. O adjectivo nada mais faz do que reforçar esta acção de catarse subliminar, quer maternos se refira à mãe ou à terra ou à água, pois que é sempre uma alusão à receptiva feminilidade(…)É um livro onde se assumem os contrários de uma forma que me parece óbvia.(…) esta obra tem já a maturidade que o futuro afinará.

Luís Serrano – Poeta, Crítico literário e Tradutor Português

João Rasteiro demonstra na sua poesia que a pronúncia duma palavra nunca é um acto neutral, mas um acto politico, mesmo corporal. As partes do corpo humano encontram as suas semelhanças projectadas na natureza, em pedra, nas árvores: as palavras chegam a ser a carne, a fronteira entre a cultura, das pessoas e da natureza, desaparecem. O mundo inclui tudo, é um todo, na sua unidade inseparável onde não há o tempo anterior ou próximo, só a verticalidade parada.
Rita Dahl - poeta, ensaísta e tradutora Finlandesa(2007)

Quindi tocca a João Rasteiro, poeta portoghese di Coimbra che il primo giorno si era presentato a me a Cristina dicendo di collaborare con una rivista siciliana; lì per lì non l’avevo molto considerato ma la sua lettura mi colpisce in positivo, ha un suo stile, contaminazioni tra classicismo e avanguardia, ritmo e sfumature performative.

Alessandro Seri – Poeta, ensaísta e agente cultural Italiano (2007)

Poema I


O cântico das pragas
É das palavras ateadas
que irradia a morte soberana
os lugares sitiados a blasfémia do silêncio.
Todos morrem nas palavras disponíveis
apenas os corvos tristes
a quem soldaram o bico no fulgor da prata
suspendem astutamente a morte
no branco das túnicas da água visível.
É nesse espaço ancestral
onde antes iam os homens sedentos
alimentar a fractura das vísceras
bebendo de rastos com as cobras
que a chuva desaba geométrica
estilhaçando o alastro da garganta
que guarda as sílabas com aroma de tílias.

O homem está morto dentro do poema
como a linguagem das antigas escrituras
e é o seu corpo que brilha através do branco.
As cobras emergem do chão
abrigam-se dóceis nas túnicas álgidas
acercam-se do corpo do homem exposto
iluminadas em sua própria loucura.
Engolem os restos da carne corrompida
e inexplicavelmente poupam-lhe os olhos
depois saboreiam o que lhes vai consumir
para sempre a língua o coração das entranhas.

O segredo absoluto e divino do extermínio do verbo.
João Rasteiro